O livro é uma coisa espantosa. É um objecto plano, feito a partir de uma árvore . É montado com um conjunto de partes planas e flexíveis (que ainda são chamadas de "folhas") onde estão impressos rabiscos de pigmento preto. Basta dar-lhe uma olhada e começámos a ouvir a voz de outra pessoa, talvez de alguém que já morreu há milhares de anos. O seu autor fala através dos milénios de forma clara e silenciosa, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, que junta pessoas, cidadãos de outras épocas, que nunca se conheceram. Os livros quebram as correntes do tempo e são a prova de que os humanos conseguem fazer magia. - Carl Sagan
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quinta-feira, 12 de julho de 2012

"O Alquimista" - Paulo Coelho


Meca é muito mais longe que as Pirâmides. Quando eu era jovem, preferi juntar o pouco dinheiro que tinha para começar esta loja. Pensava em ser rico algum dia, para ir a Meca. Passei a ganhar dinheiro, mas não podia deixar ninguém a cuidar dos cristais, porque os cristais são coisas delicadas. Ao mesmo tempo, via passar defronte da minha loja muitas pessoas que seguiam na direcção de Meca. Havia alguns peregrinos ricos, que iam com um séquito de criados e de camelos, mas a maior parte das pessoas era muito mais pobre do que eu era.
Todas iam e voltavam contentes, e colocavam na porta das suas casas os símbolos da peregrinação. Uma delas, um sapateiro que vivia de remendar as botas alheias, disse-me que tinha caminhado quase um ano pelo deserto, mas que ficava sempre mais cansado quando tinha de percorrer alguns quarteirões de Tânger para comprar couro.
- Por que não vai a Meca agora? - perguntou o rapaz.
- Porque Meca é o que me mantém vivo. E o que me faz aguentar todos estes dias iguais, estes copos calados nas prateleiras, o almoço e o jantar naquele restaurante horrível. Tenho medo de realizar o meu sonho, e depois não ter mais motivos para continuar vivo.
»Tu sonhas com ovelhas e com pirâmides. És diferente de mim, porque desejas realizar os teus sonhos. Eu queria apenas sonhar com Meca. Já imaginei milhares de vezes a travessia do deserto, a minha chegada à praça onde está a Pedra Sagrada, as sete voltas que devo dar em torno dela antes de tocá-la. Já imaginei quais as pessoas que estarão a meu lado, na minha frente, e as conversas e orações que compartilharemos juntos. Mas tenho medo que seja uma grande decepção, então prefiro apenas sonhar.
Nesse dia, o Mercador deu permissão ao rapaz para construir a estante. Nem todos podem ver os sonhos da mesma maneira.



O Alquimista é um best-seller do escritor brasileiro Paulo Coelho.
Este livro narra a história de um jovem pastor chamado Santiago que, após ter um sonho repetido, decide partir em uma longa viagem da Espanha ao Egitpo, pois, segundo o sonho, é lá, junto às pirâmides, onde ele irá encontrar um tesouro enterrado. Ao iniciar sua jornada ele se vê lançado em uma imprevisível busca por esclarecimento sobre os grandes mistérios que acompanham a humanidade desde o início dos tempos; baseada na história das Mil e Uma Noites, "The Ruined Man who Became Rich Again through a Dream".
O livro foi traduzido para mais de 73 línguas, tendo vendido mais de 65 milhões de cópias em todo mundo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"A Bruxa de Portobello" - Paulo Coelho


Athena parou diante de mim e repetiu o gesto de sempre: fechou os olhos, e abriu a boca para receber o corpo de Cristo.
     O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mãos.
     Ela abriu os olhos, sem entender exactamente o que estava a acontecer.
     — Conversamos depois — sussurrei.
     Mas ela não se movia.
     — Tem gente atrás de si na fila. Conversamos depois.
     — O que está a acontecer? — todos que estavam próximos puderam escutar a sua pergunta.
     — Conversamos depois.
     — Por que não me dá a comunhão? Não vê que me está a humilhar diante de todos? Não basta tudo aquilo que já passei?
     — Athena, a Igreja proíbe que pessoas divorciadas recebam o sacramento. Assinou os papéis esta semana. Conversamos depois — insisti mais uma vez.
     Como não se movia, fiz menção para que a pessoa atrás dela passasse à frente. Continuei a dar a comunhão até que o último paroquiano a tivesse recebido. E foi então que, antes de voltar ao altar, ouvi aquela voz.
     Já não era a voz da rapariga que cantava para adorar a Virgem, que conversava sobre os seus planos, que se comovia ao contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava ao dividir as suas dificuldades no casamento. Era a voz de um animal ferido, humilhado, com o coração repleto de ódio.
     — Pois maldito seja este lugar! — disse a voz. — Malditos sejam aqueles que jamais escutaram as palavras de Cristo, e que transformaram a sua mensagem numa construção de pedra. Pois Cristo disse: “vinde a mim os que estão agoniados, e eu os aliviarei”. Eu estou agoniada, ferida, e não me deixam ir até Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: vinde a mim os que seguem as nossas regras, e deixem os agoniados para lá!
     Ouvi uma das mulheres na primeira fila a dizer que se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava de ouvir. Voltei-me e fiquei diante dela, com a cabeça baixa — era a única coisa que podia fazer.
     — Juro que jamais voltarei a pôr os pés numa igreja. Mais uma vez sou abandonada por uma família, e agora não são dificuldades financeiras, ou imaturidade de gente que casa cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta para uma mãe e um filho! Vocês são iguais àqueles que não acolheram a Sagrada Família, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de um amigo!
     E, dando meia-volta, saiu aos prantos, com o filho nos braços. Eu terminei o ofício, dei a bênção final, e fui direto para a sacristia — naquele domingo não haveria confraternização com os fiéis, nem conversas inúteis. Naquele domingo, eu estava diante de um dilema filosófico: tinha escolhido respeitar a instituição, e não as palavras na qual a instituição é baseada.