O livro é uma coisa espantosa. É um objecto plano, feito a partir de uma árvore . É montado com um conjunto de partes planas e flexíveis (que ainda são chamadas de "folhas") onde estão impressos rabiscos de pigmento preto. Basta dar-lhe uma olhada e começámos a ouvir a voz de outra pessoa, talvez de alguém que já morreu há milhares de anos. O seu autor fala através dos milénios de forma clara e silenciosa, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, que junta pessoas, cidadãos de outras épocas, que nunca se conheceram. Os livros quebram as correntes do tempo e são a prova de que os humanos conseguem fazer magia. - Carl Sagan

terça-feira, 20 de março de 2012

Primavera - José Almada Negreiros


O sol vae esmolando os campos com bôdos de oiro.

A pastorinha aquecida vae de corrida a mendigar a sombra do chorão corcunda, poeta romantico que tem paixão p'la fonte.

Espreita os campos, e os campos despovoados dão-lhe licença para ficar núa. Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a seccar-se ao sol. Mas o vento que vinha de lá das Azenhas-do-Mar, trazia peccados
comsigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do
proprio Senhor Morgado á meia noite ao entrar na adega. Abanou a fronte para lhe fugir o peccado, mas foi dar comsigo na sachristia a deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mão, e depois a testa... porque Deus é bom e perdôa tudo... e depois as faces e depois a bocca e depois... fugiu... Não devia ter fugido... E agora o moleiro, lá no arraial, bailando com ella e sem querer, coitado, foi ter ao moinho ainda a bailar com ella. E lembra-se ainda - sentada na grande arca,
e mãos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpête, emquanto ouve a historia triste do moinho com cincoenta malfeitores... Quer lembrar-se mais, que seja peccado! quer mais recordações do moinho, mas não encontra mais.

Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ella e lhe perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito, uma borboleta muito bonita! Que não, que não tinha visto; mas o boieiro desconfiado foi procurando sempre, e até mesmo por debaixo dos vestidos.

Como desejava poder ir com todos!

Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.

Teria a borbolêta branca fugido para dentro d'ella?

segunda-feira, 12 de março de 2012

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - José Saramago


Como sempre desde que o mundo é mundo, para cada um que nasce, há outro que agoniza. O de agora, falamos do que está à morte, é o rei Herodes, que sofre, além do mais e pior que se dirá, de uma horrível comichão que o põe às portas da loucura, como se as mandíbulas miudinhas e ferozes de cem mil formigas lhe estivessem roendo o corpo, infatigáveis. Depois de terem experimentado, com nenhumas melhoras, quantos bálsamos se usaram até hoje em todo o orbe conhecido, sem exclusão do Egipto e da índia, os médicos reais, já de cabeça perdida ou, para ser mais exacto, com medo de perdê-la, lançaram-se a compor banhos e mezinhas ao acaso, misturando em água ou óleo quaisquer ervas ou pós de que alguma vez se tivesse dito algum bem, mesmo sendo contrárias as indicações da farmacopeia. O rei, possesso de dor e furor, com espuma a saltar-lhe da boca como se o tivesse mordido um cão raivoso, ameaça que os fará crucificar a todos se não descobrirem rapidamente remédio suficiente para os seus males, que, como já foi antecipado, não se limitam ao ardor insofrível da pele e também ás convulsões que frequentemente o derrubam, o atiram ao chão, fazendo dele um novelo retorcido, agónico, com os olhos a saltarem-lhe das órbitas, as mãos rasgando as vestes, por baixo das quais as formigas, multiplicando-se, prosseguem o devastador trabalho. O pior, o pior verdadeiramente, é a gangrema que se tem manifestado nestes últimos dias, e esse horror sem explicação nem nome de que se fala em segredo no palácio, a saber, os vermes que infestam os órgãos genitais da real pessoa e que, esses sim, a estão devorando em vida. Os gritos de Herodes atroam as salas e as galerias do palácio, os eunucos que o servem directamente não dormem nem descansam, os escravos de nível inferior fogem de encontrar-se no seu caminho. Arrastando um corpo que fede de putrefacção, apesar dos perfumes que leva embebidas as roupas e ungidos os cabelos pintados, a Herodes só o mantém vivo a fúria. Transportado numa liteira, rodeado de médicos e de guardas armados, percorre o palácio de um extremo a outro à procura de traidores, desde há muito que os vê, ou adivinha em toda a parte, e o seu dedo de súbito aponta, pode ser um chefe de eunucos que estava conquistando demasiada influência, ou um fariseu recalcitrante que anda protestando contra os que desobedecem à lei devendo ser os primeiros a respeitá-la, neste caso nem é preciso pronunciar um nome para saber de quem se trata, podem ser ainda os seus próprios filhos Alexandre e Aristóbulo, presos e logo condenados à morte por um tribunal de nobres à pressa convocado para essa sentença e não outra, ora, que outra coisa poderia ter feito este pobre rei se em alucinados sonhos via aqueles maus filhos avançando para ele de espada nua, e se, no mais abominável dos pesadelos, olhava, como num espelho, a sua própria cabeça cortada. Do fim terrível conseguiu livrar-se, agora pode contemplar tranquilamente os cadáveres daqueles que um minuto antes ainda eram herdeiros de um trono, os seus próprios filhos, culpados de conspiração, abuso e arrogância, mortos por estrangulamento.

Farewell to London - Alexander Pope

 

Dear, damn'd distracting town, farewell!
Thy fools no more I'll tease:
This year in peace, ye critics, dwell,
Ye harlots, sleep at ease!

Soft B-- and rough C--s adieu,
Earl Warwick made your moan,
The lively H--k and you
May knock up whores alone.

To drink and droll be Rowe allow'd
Till the third watchman's toll;
Let Jervas gratis paint, and Frowde
Save three-pence and his soul.

Farewell, Arbuthnot's raillery
On every learned sot;
And Garth, the best good Christian he,
Although he knows it not.

Lintot, farewell! thy bard must go;
Farewell, unhappy Tonson!
Heaven gives thee for thy loss of Rowe,
Lean Philips, and fat Johnson.

Why should I stay? Both parties rage;
My vixen mistress squalls;
The wits in envious feuds engage:
And Homer (damn him!) calls.

The love of arts lies cold and dead
In Halifax's urn:
And not one Muse of all he fed
Has yet the grace to mourn.

My friends, by turns, my friends confound,
Betray, and are betrayed:
Poor Y--r's sold for fifty pound,
And B--ll is a jade.

Why make I friendships with the great,
When I no favour seek?
Or follow girls, seven hours in eight?
I us'd but once a week.

Still idle, with a busy air,
Deep whimsies to contrive;
The gayest valetudinaire,
Most thinking rake, alive.

Solicitous for others' ends,
Though fond of dear repose;
Careless or drowsy with my friends,
And frolic with my foes.

Luxurious lobster-nights, farewell,
For sober, studious days!
And Burlington's delicious meal,
For salads, tarts, and pease!

Adieu to all, but Gay alone,
Whose soul, sincere and free,
Loves all mankind, but flatters none,
And so may starve with me. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

"As Regras da Sedução" - Madeline Hunter



Ela teve de inclinar a cabeça para trás para olhar para ele. Estava novamente a fazê-lo, a tentar dominar com a sua presença e vontade. Comprazia-se nisso e ele sentiu vontade de lhe bater pelo efeito que exercia nela. Com o avolumar da raiva, a sua pulsação acelerou.
     - Como se atreve a falar do meu futuro? E logo o senhor! Há um mês já não era promissor. Não possuía fortuna nem beleza mas pelo menos tinha um lar e uma família. É chocante que aborde o assunto à minha frente.
     Ele aceitou as acusações sem comentar. Ela viu nos olhos faiscantes dele um reflexo dos seus. Soou um alerta dentro de si, mas ela ignorou-o.
     - Há homens que procuram mais do que a fortuna e não lhe falta beleza. - Tendo em conta a expressão dele, intensa e dura, a sua voz soou muito calma.
     - Agora está a ser cruel.
     - Os seus olhos são duas maravilhas. Hipnotizantes. E reflectem o seu espirito indómito.
     A lisonja deixou-a sem fala. A sua mente fervilhava, procurando ordenar ideias que se dispersavam com o choque, mas não havia maneira de o fazer.
     Ele estava agora mais próximo. Ela não se apercebera do seu movimento mas estava muito próximo. Demasiado próximo. Fixou-a nos olhos e, por sua vez, hipnotizou-a.
     Um calor suave na sua face. Ele estava a tocar nela. A ponta dos dedos dele provocou-lhe um arrepio por todo o corpo. Devia...
      - A sua tez também é encantadora - disse ele, acariciando-a subtilmente. O doce contacto, surpreendente e íntimo, cortou-lhe a respiração. Ele baixou os olhos. - E a sua boca, Miss Welbourne. Bem, a sua boca é bele de um modo que duvido que alguma vez venha a compreender.
     Voltou a olhá-la nos olhos e mais uma vez a atordiu. O seu olhar ardia, fogoso e abrasador, repleto do perigo que desde o ínicio pressentira nele. (...)
     A boca dele pressionou a sua. Quente, firme, dominador, o beijo produziu uma onda de choque prodigiosa.

"Boca do Inferno" - Ricardo Araújo Pereira


"Apelo à Inquietação"

     Sem querer ser alarmista, devo informar todos os leitores do seguinte: fomos recentemente colocados perante um escândalo política, e a nossa democracia pode estar em perigo. Quando anunciou ao país a data do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, Cavaco Silva produziu afirmações gravíssimas que, segundo creio, passaram até agora sem comentário. O presidente da República disse, com toda a desfaçatez, e cito: "é imprescindível que o debate decorra com serenidade e elevação." Ora, nenhum democrata pode admitir que o garante da democracia em Portugal venha deste modo limitar os direitos políticos de boa parte dos cidadãos. Se o debate sobre o aborto deve decorrer com serenidade e elevação, quase toda a gente que se pronuncia publicamente sobre o assunto vai ter de se calar. Até agora, o debate tem decorrido, regra geral, com bastante primarismo e gritaria. A julgar pelo barulho, o debate sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez opõe aborcionistas assassinos a beatos hipócritas. E Cavaco Silva acaba de excluir essa gente da discussão. Pergunto: quem sobra?
     Temo que não sobre ninguém. A comunicação social, por um problema técnico qualquer, tem dificuldade em captar discussões que sejam mantidas em voz baixa. Com serenidade e elevação, não vamos lá. A única maneira de o público tomar contacto com a opinião defendida por ambos os lados do debate é a barulheira. Padres serenos não aparecem na televisão. Mas padres encarniçados a pregarem contra partidos do sim em pleno altar porque essa gente que não respeita a vida devia ser abatida têm lugar no horário nobre. Activistas pró-aborto que discutem com elevação também aparecem pouco. Mas as que estão dispostas a explicar, aos gritos e à beira da apoplexia, porque é que este debate que opões gente séria a gente hipócrita deve decorrer com calma e sem maniqueísmos aparecem bastante mais.
     Há, nas declarações de Cavaco, outro problema: um plágio descarado da postura de Jorge Sampaio enquanto presidente da República. Apelar à serenidade é património político de Jorge Sampaio. Sampaio apelou à serenidade três ou quatro vezes por dia, ao longo dos dez anos em que foi presidente. Durante os dois mandatos de Sampaio, o país esteve mais sereno do que uma lesma. Creio que, em 2004, Sampaio apelou tanto à serenidade que o país chegou a adormecer durante dois ou três meses. E, quando acordou, Santana Lopes estava no poder. Cuidado, pois, com a serenidade.

"A Tia Marquesa" - Simonetta Agnello Hornby


Os cabelos encaracolados de Constanza faziam-lhe cócegas no pescoço por baixo da barba. «Esta é diferente, é a a melhor. Os filhos de Constanza serão a salvação do sangue da mãe.» Enterneceu-se ao pensar na mulher. Constanza abriu os olhos e olhou-o de baixo para cima. Segurava-a com firmeza, as mãos sobre o baixo-ventre, e compreendia assim a sua sensibilidade animal às reacções dos outros, mesmo aos pensamentos. «Daqui o sangue Safamita correrá em homens e mulheres de valor», pensava. «Esta deve controlar o seu património, só ela.»
     «Papá, não gosto de estar ao colo do padre Puma: devo continuar a estar para ir para o Paraíso?» Constanza tinha falado com uma vozinha muito fraca, parecia estar a dormir.
     «Não, não deves. Diz-lho», respondeu o pai.
     «Já lhe disse, mas ele diz que é assim que se aprende a receber o corpo de Cristo. É um segredo. Não gosto do padre Puma. Tenho que o fazer?»
     «Não, não é preciso», respondeu o pai. Um suor novo escorria-lhe das têmporas, da testa, do nariz e enfiava-se, quente e salgado, por entre os lábios. Tinha que saber.
     «Onde te toca?»
     «Aqui», disse Constanza, dirigindo-lhe a mão com a sua - pequena, ossuda - para a virilha. «Magoa-me.»
     «Isso não se faz, diz-to o teu pai», afirmou. «Diz-lhe que não é preciso fazer isso para a primeira comunhão.»
     «Mas ele diz que se faz e que é um segredo. O que faço amanhã quando ele vier?» Constanza estava anciosa.
     O pai tinha dificuldade em controlar-se, a ira inchava-lhe os músculos. Doíam-lhe. «Não te preocupes, Constanza. Podes sempre confiar os teus segredos ao papá, eu não os conto a ninguém, nem sequer à mamã. Isto fica só para nós os dois e basta. Eu falo com o padre Puma. Amanhã não virá ao palacete. Estás pronta para a primeira comunhão e não precisas mais de catequese, e depois aliás temos de ir todos a Palermo para acompanhar Stefano ao colégio.»

"A Bruxa de Portobello" - Paulo Coelho


Athena parou diante de mim e repetiu o gesto de sempre: fechou os olhos, e abriu a boca para receber o corpo de Cristo.
     O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mãos.
     Ela abriu os olhos, sem entender exactamente o que estava a acontecer.
     — Conversamos depois — sussurrei.
     Mas ela não se movia.
     — Tem gente atrás de si na fila. Conversamos depois.
     — O que está a acontecer? — todos que estavam próximos puderam escutar a sua pergunta.
     — Conversamos depois.
     — Por que não me dá a comunhão? Não vê que me está a humilhar diante de todos? Não basta tudo aquilo que já passei?
     — Athena, a Igreja proíbe que pessoas divorciadas recebam o sacramento. Assinou os papéis esta semana. Conversamos depois — insisti mais uma vez.
     Como não se movia, fiz menção para que a pessoa atrás dela passasse à frente. Continuei a dar a comunhão até que o último paroquiano a tivesse recebido. E foi então que, antes de voltar ao altar, ouvi aquela voz.
     Já não era a voz da rapariga que cantava para adorar a Virgem, que conversava sobre os seus planos, que se comovia ao contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava ao dividir as suas dificuldades no casamento. Era a voz de um animal ferido, humilhado, com o coração repleto de ódio.
     — Pois maldito seja este lugar! — disse a voz. — Malditos sejam aqueles que jamais escutaram as palavras de Cristo, e que transformaram a sua mensagem numa construção de pedra. Pois Cristo disse: “vinde a mim os que estão agoniados, e eu os aliviarei”. Eu estou agoniada, ferida, e não me deixam ir até Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: vinde a mim os que seguem as nossas regras, e deixem os agoniados para lá!
     Ouvi uma das mulheres na primeira fila a dizer que se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava de ouvir. Voltei-me e fiquei diante dela, com a cabeça baixa — era a única coisa que podia fazer.
     — Juro que jamais voltarei a pôr os pés numa igreja. Mais uma vez sou abandonada por uma família, e agora não são dificuldades financeiras, ou imaturidade de gente que casa cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta para uma mãe e um filho! Vocês são iguais àqueles que não acolheram a Sagrada Família, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de um amigo!
     E, dando meia-volta, saiu aos prantos, com o filho nos braços. Eu terminei o ofício, dei a bênção final, e fui direto para a sacristia — naquele domingo não haveria confraternização com os fiéis, nem conversas inúteis. Naquele domingo, eu estava diante de um dilema filosófico: tinha escolhido respeitar a instituição, e não as palavras na qual a instituição é baseada.